Ex-craque da seleção feminina de futebol do Brasil hoje é operadora de máquinas em Rondônia e viu “sacolada” contra China

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“Marta é Marta. Ela é como o Romário, sabe onde colocar a bola e marcar o gol”
 
A 16 mil quilômetros de Tóquio, na calorenta Porto Velho, a funcionária pública Elissandra Regina Cavalcanti não precisou deixar sua casa no bairro de Aponiã apressada para conduzir a escavadeira hidráulica na manhã desta quarta-feira, 21. O equipamento está em manutenção, ela está de plantão e pôde acompanhar com a emoção de sempre a estreia da seleção feminina de futebol nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
 
“Com uma sacolada dessas valeu acordar cedo”, disse Elissandra, que nos tempos de pioneira da seleção, era titular da equipe que debutou na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Em um time que tinha Sissi, Formiga, Pretinha, Roseli e Kátia Cilene, a menina Elissandra era a talentosa lateral-direita Nenê.
 
“Marta é Marta. Ela é como o Romário, sabe onde colocar a bola e marcar o gol. E eu fico só imaginando se eu ainda jogasse nas duas laterais, quantos gols a Marta não marcaria com os meus passes”, lembrando os dois gols marcados pela artilheira nos 5 a 0 sobre a China.

 
Passes que Nenê cansou de dar para a grande Sissi, a craque de sua época. “Comparar Marta e Sissi é como comparar Pelé e Zico. Marta foi seis vezes a melhor do mundo, não há como discutir. Já a Sissi era o toque certo, na hora certa. Sabe o maestro do time? Era ela”.
 
Nenê comentou também a apresentação da amiga Formiga, que joga desde os seus tempos. “No começo da partida contra as chinesas eu achei que ela estava um pouco insegura, mas logo foi acertando os passes e a marcação. Mas o que me preocupa é que ela vem de uma lesão, tanto que foi substituída. Ela é muito importante para o time”.
 
Aos 45 anos, Nenê é operadora de máquinas pesadas na Prefeitura da capital de Rondônia e cumpre uma missão que não tem nada a ver com seus tempos de menina, quando era a caçula de 12 irmãos e batia uma bola redondinha pelas ruas do seu bairro, onde as crianças conviviam com o tráfico da cocaína pura vinda da Bolívia.
 
“Falando em escavadeira parece uma coisa difícil, mas eu digo que operar uma máquina dessas é quase como jogar vídeo game. Eu prestei concurso público, fui aprovada e levo tranquilamente o trabalho que consiste em ajudar na construção de pontes, arrastar toras e tirar veículos dos atoleiros. Mas é sim uma máquina com muita potência”.
 
Quando fala em máquina, ela volta no tempo e vê a equipe brasileira no Mundial de 1995, na Suécia, e nas Olimpíadas de 1996. “Além de ser um time muito bom, que tinha grandes jogadoras, ainda entrávamos em campo como se fosse a última partida da vida da gente. Sabíamos que era necessário sempre puxar o último suspiro, ralar a bunda no chão, puxar o último gás do pulmão. Todos os jogos eram para nós o jogo da vida. Era vida ou morte”.
 
E foi assim que aquela equipe chegou à quarta posição nos Jogos de Atlanta-1996. Algo que incomoda Nenê até hoje.
 
“Teve o fator sorte, que pesou contra nós, e teve também a arbitragem. Não esqueço da partida contra a Alemanha. Eu levei um drible e tomamos gol a três minutos de jogo, mas olhamos uma na cara da outra e dissemos: o jogo vai começar agora, elas não são melhores que nós. Então jogamos uma pela outra. Ainda no primeiro tempo, a Sissi driblou uma zagueira, passou pela goleira e finalizou, mas a zagueira pulou e espalmou a bola com a mão. Aí aconteceu o impossível: o telão do estádio foi desligado e o juiz nem escanteio deu. Era tudo para nos prejudicar”.
 
Mas a seleção conseguiu a virada e passou surpreendentemente à fase seguinte. E então ocorreu a segunda virada.
 
“Eu sempre digo às meninas de hoje e até mandamos um vídeo para o grupo lá em Tóquio: elas jogam por nós também. Pelo passado de muita luta e dedicação. E desprezo dos dirigentes da CBF. Sempre que posso conto uma história que ocorreu antes do jogo contra as alemãs: quando descemos do nosso quarto e fomos para a preleção, ficamos sabendo que era preciso arrumar as malas e deixar na portaria do hotel, porque a CBF e o COB já tinham comprado nossa passagem de retorno ao Brasil”.
 
A equipe iria do estádio direto para o aeroporto.
 
“Nós éramos tão desprezadas que os dirigentes já contavam com nossa eliminação. Foi um choque, mas acabou que esse desprezo nos fortaleceu ainda mais. Passamos à fase seguinte e tiveram que nos levar para a Vila Olímpica”.
 
É essa garra que Nenê espera ver no jogo da equipe de Pia Sundhage. Para que não ocorra novamente um outro fato, que aconteceu na volta da seleção brasileira, desta vez das Olimpíadas de Sydney, em 2000.
 
“Quando retornamos, acabamos perdendo o emprego. Eu mesmo cheguei e fui chamada ao RH do São Paulo Futebol Clube para ser demitida. O futebol feminino era assim. É inacreditável não é? Simplesmente iam desmontar o time”.
 
Como sua família tinha uma condição financeira boa, Nenê continuou mais dois anos em São Paulo tentando a sorte, bancada pelo pai, seu Francisco, que era dono da Padaria Santo Antônio. Ela propôs ao pai que só voltaria para Porto Velho se fosse para ser a comandante do negócio. O pai aceitou, ela retornou à sua terra e deixou o futebol profissional de lado.
 
“Em um mês eu ganhava na padaria o salário de um ano no futebol. Ainda fui chamada para a fase de preparação dos Jogos de Atenas, em 2004, mas imagina… eu na padaria, com doces e pães de queijo. Confesso que estava meio gordinha”.
 
E assim, precocemente, a grande ala, veloz como poucas, deixou o jogo de bola. Mas a paixão continuou. Acompanha tudo sobre o futebol feminino e, em 2018, ajudou a equipe local a participar do Brasileiro da segunda divisão.
 
Porém, depois do concurso público, virou uma autêntica operadora de máquinas pesadas. Vai ao trabalho de moto, mas antes come sua tapioca, com ovo cozido e carne moída. Nesta quarta-feira, por conta do fuso horário de Rondônia, acordou às quatro da manhã para ver Marta e companhia. E espera continuar assim até a sonhada medalha de ouro, obsessão de sua geração de meninas guerreiras.
 

Fonte: Reprodução
Autor: UOL


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